Uma conversa despretensiosa num café virou semente
— e me fez repensar sobre minha presença digital.
Estava almoçando com uma cliente antes de começarmos a fotografar. Como sempre, carregadas de sacolas, roupas, sapatos, bolsas... ocupamos nossa mesa e boa parte da mesa vizinha.
— A gente tá invadindo teu espaço, né? Já devíamos juntar as mesas e almoçar juntas. Brinquei.
Ela riu. Começamos a conversar.
Na despedida, trocamos contatos. Ela contou que era consultora de imagem. E eu, como que no automático, já fui pedindo o Instagram dela.
— Eu não tenho Instagram. Quer dizer… não profissional — respondeu.
Em choque, rebati:
— Como assim não tem Instagram?
E emendei o discurso:
— Mas tu tem que ter um Instagram! Mostrar teu trabalho!
Ela sorriu:
— Tenho minhas questões com explorar a imagem das minhas clientes nas redes. Mas isso é conversa pra outro café.
Na hora não percebi. Mas aquela frase — que saiu da minha boca sem pensar — ficou reverberando dentro de mim pelos dias seguintes.
Por que eu disse aquilo?
Logo eu, que tantas vezes me senti desconfortável com a obrigação de aparecer. Que sofria para criar conteúdo. Que já não acreditava tanto nesse modelo de exposição constante.
Por que eu estava empurrando essa obrigação para outra mulher?
Talvez porque estamos todos vestidos e treinados para lutar numa arena onde estar ausente é entregar a luta para o concorrente.
A lógica é simples (e cruel): para sobreviver, é preciso estar. Estar sempre. Estar visível. Estar relevante.
E assim entramos no ringue, dia após dia, exaustos, tentando vencer o algoritmo.
A vitrine que deveria impulsionar nossos sonhos muitas vezes se torna um espelho distorcido — refletindo ansiedade, cansaço e uma incômoda sensação de inadequação.
A palavra “constância”, repetida como mantra em cursos e mentorias, começou a me dar arrepios.
A cada métrica não alcançada, uma micro derrota. A cada notificação, um pequeno alerta de que eu ainda não fiz o suficiente.
Nesse processo, a autenticidade se dissolve. Para caber nos formatos virais, a gente começa a silenciar a própria voz.
Apaga o traço único. Suprime a faísca original, aquela que Deus colocou em cada um e nos faz diferentes.
O preço é alto.
Pagamos em noites mal dormidas, pensamentos negativos e em uma angústia persistente: a de não estar conseguindo acompanhar.
Desconectar, ainda que por um tempo, não é fraqueza. É ato de coragem. É o início de um retorno — à voz, à paixão, à sanidade.
Hoje, vejo aquele encontro no café como um sinal. Um sussurro de Deus, me alertando de que minha relação com as redes precisava mudar.
A semente que ela plantou cresceu. Até que um dia, sem planos mirabolantes ou despedidas dramáticas, deletei o aplicativo do meu celular.
Só cansei.
Foi então que descobri: não era só eu.
Assisti a um vídeo do criador de conteúdo Elton Luiz, onde ele apresenta um plano estruturado para sair do Instagram (bem mais inteligente hahaha ) — mesmo ainda dependendo parcialmente da rede para sua renda.
No mesmo vídeo, ele menciona um texto do Alexandre Zara aqui no Substack: “Guia de conteúdo para não depender do Instagram”. Uma leitura que me trouxe clareza e recomendo a leitura.
Curiosa, fui até o canal do Zara no YouTube — e fiquei.
Estou há pouco tempo no Substack, mas já percebo esse movimento silencioso que ele fala: Grandes criadores de conteúdo estão aparecendo por aqui.
Testando. Observando. Buscando algo diferente.
A crítica do próprio Zara é direta: muitos desses criadores ajudaram a saturar a internet com conteúdos rápidos, rasos e descartáveis — e agora estão exaustos.
Querem fugir da internet que ajudaram a construir.
Claro, sair do Instagram não é uma linha reta. Esses conteúdos me fizeram pensar que talvez precise voltar — nem que seja por um tempo — para contar que agora estou em outros lugares.
Que o trabalho continua, só mudou de endereço.
E tudo bem.
Não é contradição. É estratégia.
Minha intenção nunca foi desaparecer, mas encontrar jeitos mais sustentáveis de aparecer.
Hoje, estou testando essas plataformas: YouTube, Pinterest, blog e Substack.
São espaços onde posso criar com mais calma e menos pressão.
Mas sejamos honestos: não existe plataforma perfeita. Todas têm seus algoritmos e também mudam o tempo todo.
O que as diferencia do Instagram é que, em muitas delas, o conteúdo dura mais — tem fôlego, pode ser encontrado dias (ou meses) depois, e isso muda tudo.
Mas não vamos romantizar.
Ainda existe a realidade de que estar nesses espaços e ser vista exige um percurso longo, estratégico e constante (olha ela aí, ainda preciso fazer as pazes com essa palavrinha).
Sair do Instagram não significa se esconder.
Significa escolher onde e como se construir — com intenção.
Não é sobre abandonar tudo.
É sobre retomar o controle.
Não é sobre romantizar o "sumir".
É sobre escolher onde — e como — a gente quer existir online.
As redes sociais não vão deixar de existir.
Mas cabe a nós construirmos uma relação mais saudável e sustentável.