terça-feira, 13 de maio de 2025

A estética pode ser gerada. A emoção, não.

Semana passada, uma amiga me mandou uma postagem de Marina Luvizari, designer da equipe de marketing do iFood. Ela compartilhou o resultado do trabalho da equipe em criar um banco de imagens totalmente com Inteligência Artificial. Quando vi as imagens geradas no novo projeto, fiquei dividida entre o encantamento e o incômodo.

Quem entende um pouco de IA e já usou algumas ferramentas sabe que alcançar coerência com personagens, núcleos e estilo não é fácil. Exige estudo, muitas tentativas e erros, e um bom tempo testando e ajustando prompts. É preciso considerar o esforço e a habilidade da equipe do iFood em atingir essa consistência estética com IA generativa e um resultado visualmente tão bonito.

As imagens têm os núcleos da marca, sorrisos largos, uma beleza artificial, e personagens um tanto estereotipados: mulheres 50+ super cool com cabelos grisalhos e peles de porcelana brilhantes; jovens magros, com cabeça raspada e expressões super simpáticas. Inclusive a ausência de diversidade gerou comentários negativos na postagem. Apostaram no diferentão e acabaram caindo na padronização. As imagens, embora bonitas, são genéricas e sem emoção. Ainda que seja um primeiro passo, e que as configurações sejam naturais, vale o alerta: sem diversidade e emoção, o belo vira oco. E isso contrasta com as campanhas do iFood, geralmente conhecidas pela criatividade, humor e propósito bem definidas — campanhas com as quais as pessoas se identificam.

Tento imaginar qual seria a estratégia por trás dessa iniciativa do iFood. Um ponto que acredito ser crucial é o ritmo de crescimento constante da empresa. Em um mercado tão dinâmico e competitivo como o de entrega de alimentos, a necessidade de produção de conteúdo visual com agilidade e em grande volume é crescente. Campanhas publicitárias, postagens em redes sociais, ilustrações para o aplicativo e materiais para restaurantes, entregadores e consumidores excluem um fluxo contínuo de imagens.

Mesmo um marketing eficiente pode enfrentar desafios para atender essa demanda — seja em termos de velocidade, custos ou logística (produção, modelos, maquiador, fotógrafos, locações, pós-produção). A IA, nesse contexto, aparece como uma solução promissora. Uma vez treinada e prevista um estilo visual consistente (paleta de cores, tipos de personagens, estética), ela permite gerar imagens sob demanda e adaptar conteúdos com muito mais rapidez e menor custo.

Essa reflexão me levou a procurar outras marcas que adotaram IA de forma semelhante. Encontrei uma campanha do Boticário de 2023 com imagens mais "artísticas". Curiosamente, eu pensei que até campanhas tradicionais — com modelos, fotógrafos e equipe completa — podem acabar com resultados igualmente artificiais quando o tratamento exagerado (oi, Photoshop!) pesa demais. Em certos casos, a imagem final se torna tão "plástica" quanto uma gerada por IA. São muitas as descobertas possíveis quando conversamos de IA, arte e pessoas: ética, danos, direitos autorais (afinal, a IA se alimenta de imagens existentes)... mas isso fica pra outro post.

Em novembro de 2024, a Coca-Cola lançou sua sempre aguardada campanha de Natal — "O Natal Chegou" . O comercial foi criado frame a frame todo com IA. A justificativa da marca era a possibilidade de personalizar o conteúdo por região. E, como já citei acima no caso do iFood, uma vez que a identidade visual é estabelecida, personalizar a partir dela fica muito mais simples. Em uma entrevista para a Fast Company , o chefe de IA generativa da Coca-Cola disse algo que me marcou:

"Sabemos que quando tentamos ser muito realistas com a IA, geralmente é muito desafiador, mas quando nos tornamos hiper-realistas, fantásticos, a IA faz um trabalho incrível." Ou seja: fantasiar, com IA, é excelente. Concorda?

Mas voltando para o iFood, fiquei pensando em outro ponto: como a empresa vai lidar com seus clientes — os restaurantes parceiros — que também estão usando IA para divulgar seus pratos na plataforma? Você vai permitir? Criar regras? Hoje já há vários vídeos no YouTube ensinando “Como turbinar o iFood com imagens de IA”. Durante a pandemia, com o boom do delivery, fotografei para o iFood através do Piktiz muitas vezes. Eles custeavam sessões fotográficas para que restaurantes melhorassem suas imagens no app. Era um benefício oferecido: fotos reais, feitas no próprio restaurante, do prato que o cliente de fato receberia — só que com um toque profissional. Verdade, mas bonito.

Sendo o iFood uma empresa que há anos investe em IA, como será o futuro disso tudo? Como cliente assidua e fotógrafa, espero continuar vendendo fotos reais dos pratos. Senão, toda pizza de calabresa vai parecer com a da Pizza Hut (adoro) na imagem — e a decepção ao abrir a caixa será enorme. Me lembro de uma pizza que pedi este ano, de um restaurante novo no app. Resolvi arriscar, tinha um cupom ótimo... e foi uma frustração. A pizza era feia, parecia montada por uma criança de seis anos e nem estava gostosa.

Como fotografa, sinto sim o mercado se afunilando, com a IA ocupando espaços. E, como solução, ver que estudar e entender essas ferramentas será essencial para o futuro da profissão. Minha geração já viu a “morte” da TV, da rádio, do jornalismo — e nada disso morreu de verdade. Todos esses meios tiveram que se reinventar, mudaram bastante, mas continuam aí. É isso que espero que aconteça conosco, profissionais criativos. Entrar em negação não vai nos salvar. Adapte-se, sim.

A IA já faz parte do cotidiano. Só que as empresas precisam ser cuidadosas com seu uso exagerado. Falei disso no pós passado, sobre a geração Z estar perdendo a confiança e buscando cada vez mais informações reais sobre os produtos. Posso estar sendo um pouco idealista, mas confio que em breve o que é real voltará a ser mais valorizado do que nunca, numa sociedade saturada pelo artificial, o natural vai se destacar.

Então: acalma seu coraçãozinho e vai estudar! A IA veio pra ficar, mas quem conseguiu equilibrar o real e o artificial, com propósito e cuidado, vai sair na frente. A estética pode ser gerada, mas a emoção, não.

Um Beijo e até a próxima.

Camila Miranda
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terça-feira, 6 de maio de 2025

Geração Z: Por que eles amam sua marca, mas a compra espera?

O funil de vendas que lute: o novo ciclo de compra é sobre inspiração, pesquisa e muita observação.


Você já deve ter ouvido falar no famoso funil de vendas — aquele caminho em etapas que o cliente percorre até comprar.

Mas e se eu te dissesse que a Geração Z está ignorando esse modelo de funil?

Estamos vivendo um novo ciclo de consumo. Ele é mais fluido e sem ordem fixa. Um ciclo baseado em inspirar e investigar.

Se você já vinha sentindo que algo mudou no comportamento do seu público, está certíssima. O jeito de consumir está mudando — e isso muda também o jeito dele se comunicar.


 O velho funil está desatualizado


A jornada tradicional dizia: “atraia → qualifique → venda → fidelize”.

Mas a geração Z não está na vibe:
Criam carrinhos sem intenção de comprar.Seguem marcas que amam… mas nunca compraram.Se dizem fiéis a uma marca, mesmo sem nunca ter consumido nada (ainda).E se satisfazem com a ideia de consumir sem pressa. (criam listas, pastas no Pinterest, carrinhos salvos, conversam com amigos)Não se apressam por conta de promoções e ofertas com prazo de validade antes de estar pronto para comprar

A venda deixa de ser o fim da linha. Ela é só mais um ponto num ciclo contínuo de descoberta, engajamento, questionamento e experimentação.


Marcas precisam inspirar, não interromper


Essa geração quer fazer parte. Quer saber por que seu produto é bom. Quer ouvir outras pessoas falando, ver detalhes reais, saber do caimento, do material, do uso no dia a dia. Confia mais em gente como ela do que em grandes campanhas.

E mais: influenciadores já não influenciam tanto assim. O marketing de influência vem perdendo força e credibilidade, abrindo espaço para conteúdo mais genuíno, vindo da comunidade. Em contrapartida o conteúdo UGC vem ganhando espaço e sendo bem recebido por essa geração.
Plataformas como o TikTok perceberam isso rápido: criaram programas como o Branded Mission, em que criadores com +1000 seguidores são desafiados a criar conteúdo para marcas — Mas esse conteúdo precisa ser real, espontâneo e criativo. Ou não cola.


O novo consumidor questiona tudo


E ele tem razão. Porque hoje:

O que mais desmotiva uma compra é:
Não encontrar informações confiáveisTer que deixar um e-mail sem saber por quêVer um anúncio que interrompe seu conteúdoNunca ter ouvido falar da marca

Ou seja: a compra exige confiançacontexto e conversa, não só uma promoção no feed.


O que fazer com tudo isso?


Como você, empreendedora, pode se adaptar?


Aqui vão algumas provocações — pensando a partir da minha área, a fotografia:
Menos perfeição, mais vida real.

Campanhas super produzidas ainda têm seu lugar, mas o público de hoje se conecta mais com o que é verdadeiro. Aposte em imagens com cara de cotidiano, espontâneas — e cuidado com o uso excessivo de I.A., que pode gerar desconfiança.
Não mostre só o produto, mostre a experiência.

Inclua fotos e vídeos do seu produto em uso, no contexto do dia a dia. O conteúdo UGC entra muito bem aqui.
Não só entretenha — informe.

Compartilhe bastidores, mostre fotos de detalhes, mostre imagens do material e sua produção e depoimentos de quem já comprou. Isso gera segurança e aproxima.
Use a imagem como convite, não só como vitrine.

Nem toda foto precisa vender — às vezes, basta despertar um sorriso, uma memória ou uma pergunta. Que história ela conta? Que detalhe pode gerar identificação?
Em resumo:

A nova comunicação não começa com um layout impecável — começa com verdade.
Com presença. Com vontade de se conectar, antes de converter.

Se quiser trocar ideias sobre isso, é só me responder por aqui.
Vou adorar saber como você tem percebido esse novo jeito de consumir (e vender).

📝 Este conteúdo foi inspirado nas análises de comportamento de consumo e marketing das seguintes publicações:
• The New Consumer Mindsets: Inspire & Inquire – Archrival
• Gen Z broke the marketing funnel – Vogue Business


Um beijo e até a próxima!

Camila Miranda
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